Escrituras, senões e quetais

11/01/2007

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Escrito por Waleska Barbosa às 10h12
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12/12/2006

Brevidades sem datas

O que vai me trazer...

Alegria mais perene?

Empolgação que não seja passageira?

Sorriso que permaneça?

Sonho que se esforce por realizar?

Vontade que não se esgote?

Força que não deixe de me mover?

Tédio que não se instale?

Vida e mais vontade de viver?

 

 

* * * *

 

Um dia inquieto.

Um dia em que estou inquieta.

Um dia em que gostaria de escrever com menos açúcar.

Sou um tipo que não posso ter tempo para pensar. Nisso pareço com mamãe. Embora ela reclame que a maioria dos filhos “não puxou a ela”.

Mas há uma diferença. Penso que ela não gosta de ter muito tempo para pensar e cuida para que ele realmente não sobre.

O meu está sobrando.

E eu penso.

E meus pensamentos me deixam inquieta.

E eu não consigo decifrá-los. Saber o que querem de mim, o querem me dizer, o que querem que eu faça.

Eu não sei o quero de mim.


Escrito por Waleska Barbosa às 17h29
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A palavra e o som

Vitória é minha irmã. Mais que isso.

Ela diz que pense em forma de clipe. Em imagens.

Eu penso em forma de palavras, de crônicas.

Vou vendo e escrevendo.

Sentindo e escrevendo.

Pouco do que escrevo em pensamento vai para o papel.

As minhas crônicas mentais são minha companhia.

Poucas vezes conseguiriam ser fidedignas a sua forma origina,  caso fosse transcrevê-las.

A música me inspira muito.

Alguns ouvem música sem ouvi-la.

Outros prestam atenção em melodia, ritmo, arranjo.

Outros conseguem separar e discernir cada um dos instrumentos.

Eu. Eu presto atenção nas letras.

E vou me encaixando nelas. Encaixando cenas, desejos, sonhos e pessoas.

Gosto disso.

É uma vida secreta.

Minha segunda identidade.

Minha dupla personalidade.

Vou separando aqueles versos.

Dando-os. Doando-os.

Tomando decisões a partir deles.

Distribuindo-os.

Este é meu. Este é seu. Este é nosso.

Este vai para meu perfil no messenger. Aquele vai para o orkut.

Este para uma crônica que vai para o papel.

Depois esqueço tudo. Tudinho.

É como se estivesse em transe. Em uma viagem.

Era só para ser mental, espiritual.

Meu alimento.

Meu refúgio.

Minha fuga.

Minhas palavras.

Minhas crônicas e escritos imaginários.

Minhas escrituras, senões e quetais.


Escrito por Waleska Barbosa às 17h24
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Havia quase dois anos que ele estava em sua vida

Havia quase dois anos que ele estava em sua vida. Estava. E não estava. Estava mais nela, em seus pensamentos e sentimentos do que em sua vida. Ou seja, ele estava em sua vida em forma de uma presença que não se materializava. Ou se materializava muito pouco. As vezes. Eventualmente.

Havia quase dois anos que ele não saía da vida dela. Mas também não entrava.

Ela já não se perguntava – muito menos perguntava a ele – por que afinal, não entrava.

E decidira até fechar as portas.

Avisou que estavam fechadas. Pediu que respeitasse isso. Pediu que passasse ao largo da soleira.

Ele ouvia. Mas voltava.

Ela, então, vendo-o ali, não se perguntava – e muito menos perguntava a ele – por que voltava.

Deixava-o entrar. Deixava-o ficar. Sem perguntas. Sem questionamentos. Sem palavras. Silêncio.

Ele vinha. Ia. Sumia. Dava mostrar invisíveis de que, sim, aquela fora e seria a última vez. Mas voltava.

Ela se debatia internamente.

Planejava dizer não – da próxima.

Odiava-o de longe para ver se o ódio conseguiria se manter diante da nova aparição.

Mesmo assim, havia quase dois anos que estava em sua vida.

Decidira que não havia explicação para isso.

Ele não dava mostras de nutrir por ela sentimento ou instinto. Amor ou sexo.

Ela não conseguia explicar, enfim, por que ele voltava.

Sabia apenas que ele continuava sendo, a despeito da passagem do tempo, a grande surpresa da sua vida.

A pessoa que a faz sentir tanto. Sentir tudo. Daquele tudo que não encontra significação ou significado ou tradução – no terreno, no explicável, no palpável, no descritível.

Ele era passado ou era ainda?

Ela também não sabia.

Ela, quando o abraça, sente-se parte dele. Sente-se nele.

É coisa boa de se sentir. Ela acha.

Ela se funde na pele dele como se fora a mesma que a veste.

E sorve seu cheiro. Sente sua temperatura.

Ela sente-se assim. Inebriada.

E aprisionada.

Sabe que quanto mais der vazão ao que sente ou gostaria de sentir, mais estará enredada.

Aprisiona tudo.

Aprisiona-se. 


Escrito por Waleska Barbosa às 17h02
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Parque Nacional de Setes Cidades (PI)

Cores escuras

Texturas

História

Inscrições rupestres

Pés descalços

sobre as pedras

A respiração sob controle

querendo vencer

para no topo chegar

A natureza gritando sua beleza

Expondo seus mistérios

E uma mão

estendida para ajudar.

 

Pedra da Tartaruga

Inscrições rupestres


Escrito por Waleska Barbosa às 16h26
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A inauguração do assentamento

O toque feminino estava em todos os detalhes do Assentamento Mulheres Organizadas, inaugurado no último sábado (25 de novembro) em Piripiri, 157 km ao Norte de Teresina (PI). As casas receberam a pintura em tom lilás e os nomes de suas donas estampadas na frente. As mulheres estavam em evidência não por acaso. Foi por iniciativa de uma delas, a agricultora familiar Maria dos Remédios Sousa Silva, 28 anos, que outras 19 decidiram criar a associação que possibilitou o acesso ao Programa Nacional de Crédito Fundiário, executado pela Secretaria de Reordenamento Agrário do Ministério do Desenvolvimento Agrário.

A propriedade de 305 hectares custou R$ 39,92 mil. Mas, os recursos repassados foram de R$ 261,5 mil. O restante, R$ 221,92 mil, foi investido em infra-estrutura e nos projetos produtivos do grupo.

A agilidade das 20 agricultoras familiares surpreendeu o diretor técnico do PNCF no Estado, Francisco das Chagas Ribeiro. “Elas compraram a terra em maio e já conseguiram fazer a inauguração. Ultrapassaram até mesmo três grupos de jovens que estão acessando a linha Nossa Primeira Terra”.

O PNCF é um instrumento complementar e de apoio à reforma agrária, que oferece linhas de crédito para a compra de imóvel rural e investimentos em infra-estrutura básica e produtiva em áreas não passíveis de desapropriação por interesse social.

O artesanato, uma das linhas produtivas na qual estão investindo, já fez sucesso em sua primeira exposição ao público. Bijuterias, redes, bordados, tapetes, acessórios, brinquedos e doces feitos com frutas típicas da região, como o buriti, não demoraram muito no estande improvisado, coberto com palha de carnaúba, matéria-prima também típica do Estado.

Outro grupo se organizou na cozinha e preparou um farto banquete para comemorar a conquista. Capote, sarapatel, bode, carneiro, churrasco, foram apenas alguns dos pratos que lotaram grandes tachos de madeira. Tudo comandado pela mãe de Remédios, a presidente da associação. “Viu como minha filha é pequenininha, mas é danada?”, perguntava orgulhosa D. Francisca.

Realmente, ao olhar para a miúda Remédios é difícil imaginar a força que tem. Inquieta, sendo chamada de um canto para outro para acertar os últimos detalhes da festa, se dividindo entre fotos, filmagens, entrevistas e cuidados com o marido e o filho Samuel, de seis anos, ela era só sorrisos e emoção. “Sinto-me realizada não só por mim mas pelas demais companheiras. Realizamos um sonho, mas ele não pára por aqui. Ao contrário, está só começando. Ainda temos muito a conquistar”, disse.

Emoção

O Secretário de Reordenamento Agrário, Eugênio Peixoto, confessou sua emoção ao ver a alegria das mulheres. Em sua fala, ele não esqueceu também dos homens – maridos e companheiros das associadas, que vestiram literalmente a camisa do Assentamento Mulheres Organizadas, uma espécie de uniforme que elas usaram. Foi o marido de Remédios quem contou a história do assentamento, destacando os momentos de dificuldades, mas, sobretudo as vitórias.

Como na terra adquirida já havia plantação, a mesa da solenidade foi decorada com seus frutos: buriti, melancia, laranja, limão, carambola. Muitas das famílias assentadas trataram de puxar uma cerca atrás de casa e já criam ali bode, galinha, capote e porco. O que dá vida ao assentamento e exprime alegria e fartura.

A festa de inauguração do assentamento contou com a presença de centenas de pessoas, vizinhos da propriedade, amigos e familiares dos novos moradores e lideranças sindicais. Deputados estaduais e federais, gestores do PNCF no Estado e demais órgãos de terra também prestigiaram a conquista feminina, o primeiro assentamento só de mulheres no Brasil, cuja inauguração aconteceu no dia em que se comemorava o Dia Nacional da Não-violência contra a Mulher.


Escrito por Waleska Barbosa às 15h48
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Maria dos Remédios e sua cura para a falta de acesso a terra

 Parte I

O texto foi o fruto de uma entrevista - realizada em agosto por telefone. Faz parte do meu trabalho, mas não foi utilizado. Talvez pela linguagem - que causa arquivos sob alegações várias...Meses depois, final de novembro, fui ao Piauí, conheci minha entrevistada e participei da inauguração da sua terra, do assentamento que consegui...

Em 1994 um caderno foi escolhido para registrar os sonhos da então adolescente Maria dos Remédios Sousa Santos. Na verdade, o sonho era um só. Ter uma propriedade que fosse sua. Podia ser aquela que ficava ao alcance dos olhos, vizinha a terra em que morava com os pais e sete irmãos. Ali, via fertilidade. Ali via a possibilidade de uma farta produção. Ali, era um lugar subaproveitado, pensava ela. O dono não explorava o potencial da área como deveria e a família que cuidava de lá não podia fazer isso de tão pobre que era. Lá, ainda criança, colhia pequis com os tios. Com a imaginação infantil ia nomeando cada uma das árvores até chegar à última, batizada de “pé do pequi do final”.

Remédios continua escrevendo. Mas a sua história já é outra. No papel onde falava de sonho, hoje está narrada uma grande realização. É dela a terra que desejava no passado, na qual colhia pequis, onde via grandes possibilidades.

É dela e de outras 19 mulheres com idades entre 24 e 60 anos. Gente que ela sabia ter o mesmo querer. Gente em quem acreditava e em quem confiava. Gente que ela buscou dentro de casa, puxou pela mão, incentivou nos momentos de descrença. Gente que não desistiu. “Passei mais de três meses andando, peneirando, conversando. Precisava achar quem já era produtora rural. Quando isso acontecia, eu não aceitava um não como resposta, embora desse uma semana para elas pensarem”. Elas nem precisavam de tanto tempo e nenhuma deu um não como resposta.

 

Todas formam a Associação de Agricultoras Familiares do Assentamento das Mulheres Organizadas, localizado em Piripiri (PI). O medo que sentiram da reação dos maridos diante da novidade foi em vão. Parecia até mentira. Mas eles se prontificaram a ajudar, apoiar, lutar e sonhar lado-a-lado com suas esposas. “Eu disse a elas que os homens já compreenderam a questão da igualdade, que eles não são mais como antigamente”.

 

O medo que sentiram de arcar com a responsabilidade de um financiamento também.“Mostrei que a terra é produtiva, que íamos conseguir pagar”.

Para cada uma, mensagem diferente. Para cada uma a palavra certa. Juntas e organizadas, elas participaram de reuniões e mais reuniões e receberam o apoio do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Piripiri, onde Remédios é diretora – ela ia tanto lá aprender novas coisas, que se revelou uma liderança indispensável às atividades da entidade. Logo foi convidada a se candidatar ao cargo.

 

Informaram-se o máximo possível sobre uma ação que parecia dar resultado, o Programa Nacional de Crédito Fundiário. “Até então, eu achava que reforma agrária não existia na prática e que estava muito distante de mim”, relembra Remédios.


Escrito por Waleska Barbosa às 15h36
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PARTE II

Pelo PNCF compraram a terra de 305 hectares por R$ 31, 95 mil. Agora, estão construindo as casas. Muitas já estão morando na área, antes mesmo de ser inaugurada. Todas estão produzindo artesanato em palha de tucum, derivada da carnaúba. São redes de dormir, bijuterias, colchas de cama e toalhas de banho. Esperam vender todas as peças na III FERAPI (Feira Piauiense de Produtos da Reforma Agrária e Comunidades Quilombolas). Depois, vão acessar o PRONAF A para investir na produção de milho, arroz, mandioca, feijão, hortas e caju. Muita coisa. Porque, segundo ela, é uma terra “muito riquíssima”, com baixa molhada verde e seca. Com uma fonte cortando os caminhos de uma água “cristalina, que nunca secou”, ainda nas suas palavras.

O que ela deseja é que cada companheira passe a desenvolver suas atividades junto ao grupo familiar, que a renda de todas aumente e que os encontros festivos que estão acontecendo quando se juntam em mutirão para cuidar da nova propriedade possam continuar. Assim, até já reencontrou o “pé do pequi do final”. Ficou emocionada em revê-lo e contou a todos de onde vinha tanta intimidade.

É claro que também esta passagem da sua vida está no seu caderno de anotações. “Não é um diário”, esclarece. É como se fosse uma mãozinha para a memória. “Escrevo tudo o que me acontece e que tem um toque de felicidade. Sinto muita emoção ao fazer isso. É que na mente guardo muita coisa, mas não tudo. No papel, fica guardado para sempre. Quero mostrar aos amigos, ao pessoal que acreditou em mim”.

Maria dos Remédios é uma mulher de 27 anos. É mãe de Samuel, 6 anos. É esposa de Erisvaldo, 28. Ao acompanhar a vistoria do terreno Samuel ia aos seus ombros, na corcunda. Subiram e desceram serra. Foi até sofrido. Mas que nada. O motivo trazia muita alegria e fazia esquecer o cansaço. As abelhas italianas atacaram todo mundo. Foi até sofrido. Mas o motivo trazia muita alegria e fazia esquecer a dor.

Remédios, aliás, não vê motivo de tristeza em sua vida. Até um meio de transporte precário, como sua “bicicletinha”, a faz feliz. Com ela sai do assentamento Mulheres Organizadas, pedala até a beira da estrada, deixa a bicicleta na casa de um vizinho, e pega um ônibus para chegar ao trabalho, no sindicato. A volta é de moto com o cunhado. E se as pessoas perguntam se não está cansada, ela responde com “uma gaitada”, uma boa gargalhada no linguajar nordestino.

Maria dos Remédios não estudou muito. Não passou do primário. Mesmo assim, fez das palavras companheiras. Registro de um sonho futuro que se fez presente realizado e compartilhado.

 


Escrito por Waleska Barbosa às 15h35
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09/11/2006

Eu me transformo em outras

A história começou bem assim: terça-feira acordei tão... “passada” que até sai de casa sem fechar a porta e levar a chave. Que tal?

Aí, fui almoçar no shopping e resolvi entrar em uma loja de discos. Não pretendia comprar nada porque nem estou em condições...Era só para dar uma espiadela nas novidades, ouvir um som, enfim, tentar relaxar.

Daí, fui atendida por ninguém menos que meu amigo Marcelo Barki, de quem já publiquei um poema neste blog. Barquim, como o chamo está “trampando” lá. Dá aulas de violão de manhã, tarde e noite vende discos e, mais noite ainda curte a sua própria música no sossego do lar. “Vivendo só de música” – disse.

Fiquei lá, olhando, como pretendia. Ele me mostrou todos os discos de choro, mas fiquei querendo mesmo Cada um belisca um pouco, instrumental, em homenagem a Luiz Gonzaga, gravado por Dominguinhos, Sivuca e Oswaldinho. Bom, não ia comprar nada, lembram? Mas o danado do cd ficou grudado na minha mão.

Depois, inventei de perguntar por aquele trabalho de Zélia Duncan, com sambinhas e tal.

O cd não tem. Mas tem o dvd. Hummm...dvd? Muito caro...

Quem acompanha estas “Escrituras, senões e quetais” já deve saber que sai da loja com as duas coisas.

Aí, começa a parte que queria realmente contar (mas não consegui me furtar ao preâmbulo). O que quero dizer é que Eu me transformo em outras, da Zélia, é um das coisas mais bonitas que vi nos últimos tempos. Foge àquele ritmo frenético de shows - e filma fumaça e filma iluminação e filma platéia e filma a cara do cantor e a mão do instrumentista...

Este foi gravado no Centro Cultural do Rio de Janeiro (ela explica que ali é um lugar antigo e que gosta de história). Foi gravado sem platéia. O resultado é de um charme, uma serenidade, uma expressão de virtuosismo dos músicos escolhidos e da sua própria interpretação.

As direções musical e geral, impecáveis.

Delicadeza. Beleza. Plenitude.

Querem uma crítica? O vestidinho da Zélia cansa um pouco. Acho que poderia ter feito umas trocas (rsrsrs).

Assistindo aos extras, em que ela explica a idéia do show, uma passagem me chamou a atenção. A cantora diz que sempre viveu a música. Mas para viver de música, teve que se envolver com coisas muito diversas. E ela pretendia, ao se transformar em outras, retomar o tempo em que vivia a música.

Fiquei refletindo sobre o mercado fonográfico. Pensando em quantos artistas romperam com ele, passaram anos sem gravar, gravaram em seus próprios selos, queimaram sutiãs nas portas das fábricas.

Aí, abro O Globo de hoje e vejo uma matéria em que “Titã carioca grava com sua verdadeira cara”. Sérgio Britto diz na matéria que “chega um momento em que a gente sente a necessidade de gravar coisas que não cabem na banda, quer tomar caminhos diferentes”. Por esta razão,  surgiu Eu sou 300, seu segundo disco solo.

Lembro também de Rita Ribeiro. Em 2003, se bem me recordo, eu a entrevistei sobre um show que faria em Brasília. Aproveitei para perguntar o que ela estava fazendo ou se preparando para fazer. Tinha deixado a gravadora e planejava o projeto Tecnomacumba.

Mais recentemente li uma matéria que falava da repercussão do projeto, do sucesso que ela obteve e da peleja que empreendeu para conseguir gravar e distribuir o trabalho.

Rita Ribeiro resolveu fazê-lo por conta própria e os fãs estavam se inscrevendo em uma lista de espera no site para adquiri-lo – esta foi a forma de distribuição encontrada. Um varejo virtual.

Conclusão...Quanta inversão de valores culturais vivemos no Brasil...Chega a doer. Mas o bom, bom mesmo, é que a criatividade e a vontade de cantar e viver a música, faz com que as pessoas se rebelem calmamente e encontrem formas de chegar a nós.
Escrito por Waleska Barbosa às 09h58
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08/11/2006

Quinteto Violado e Elba Ramalho

Era a entrega de um prêmio pelo Ministério da Cultura. E, enquanto esperava o que viria, dormi.

Desculpem-me os premiados. Mas fui à Sala Villa-Lobos ver Quinteto Violado e Elba Ramalho.

Tão logo o início do show foi anunciado dei, como diria na minha terra, um pinote na cadeira e acordei prontamente.

Acordei para ver um momento belo, que me encheu de alegria e inspiração.

Quuinteto Violado – perfeito. Tocando frevos com a roupagem deles. Eu fui viajando nos instrumentos. Prestei muita atenção na bateria. Baseada em Mauro que toca este instrumento, tem uma batera em casa e ensaia numa banda e depois me faz ouvir a gravação dos ensaios. Fiquei pensando que seria bom que ele acompanhasse um disco do Quinteto.

Aí, entra Elba Ramalho.

Deixei tudo o mais de lado. Não conseguia tirar os olhos dela. Admirá-la. Amá-la. Tietá-la.

Ela errou a letra da primeira música. Esqueceu outras partes.

Mas que nada.

A mulher é, para mim, o maior talento da música brasileira. Pela beleza que conseguiu construir em si, pela voz, pela potência da voz e a capacidade, que parece tão fácil, de fazer graves e agudos, gritos e calmaria...Tem uma energia, um jeito de menina pulando de lá pra cá. Nossa... E eu só arrepios... Ela gravou a música que começou a fazer sucesso com Santana – o cantador. É daquelas que a gente nunca sabe o nome... “Se avexe não...que amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada...”

Aí, sobe ao palco Gilberto Gil. Cantando Esperando na janela e Procissão. Outra figura cativante. Com sua dança bonita, seu corpo fininho, esbelto...

Voltam Elba e Quinteto.

A essas alturas as pessoas já invadiam o palco, fazendo uma fila dançante puxada por quem? Gil. Gil e Elba. Os fotógrafos devem ter captado uma bela imagem. Única. Ímpar. Os flashes outrora proibidos espocaram afoitos. O momento. Não se pode deixar escapar o momento.

Elba falou em Campina Grande, na Paraíba. E me deu imenso prazer ouvir os nomes das minhas terras.

Falou do seu início no Rio de Janeiro para onde foi acompanhando o quinteto, que a descobrira em 1974. “Eu era apenas uma atriz bem simples”, disse.

Eles  partiam para o Nordeste, de volta. Ela e sua mala resolveram ficar. “Mas você conhece alguém aqui?” “Não. Mas vou ficar”.

Era sua predestinação, sua convicção, sua disposição de encarar sofrimentos e as glórias que viriam e vieram.

Uma noite mágica. Banhada por chuva. Encontrada por amigos.

Fez-me muito bem.

E o fim desta história não podia ser outro. Está virando meu bordão.

A arte como redenção.

A arte.

A minha redenção.


Escrito por Waleska Barbosa às 00h29
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25/10/2006

Tivemos um amigo na infância cuja presença se fazia não tocar, mas ouvir.

Tivemos um amigo na infância que não brincou conosco, mas aguçou, como nenhum brinquedo teria conseguido, nossa imaginação.

Tivemos um amigo na infância que esteve conosco todos os dias, com o qual dividíamos alegrias, pelo qual dávamos parabéns aos aniversariantes queridos.

Tivemos um amigo na infância cuja voz não deixou de ressoar em nós com a passagem do tempo, cuja voz ao fazer parte da nossa infância nos marca a todos até hoje.

Tivemos um amigo na infância para o qual telefonávamos para fazer galhofa, para dar um alô e receber depois os ecos deste alô.

Tivemos um amigo na infância que chegava até nós por ondas – que vinham, batiam em nossos tímpanos, se retiravam e voltavam no outro dia, à mesma hora. Faziam seu barulho, como no mar. Traziam resquícios de distâncias e mistérios, como no mar. Deixavam o seu rastro sob nossos pés, como no mar. Mas o amigo de infância que tivemos usava as ondas do rádio para se chegar.

Deste amigo não conhecíamos a face. Apenas a voz. Deste amigo não sabíamos a idade. Não precisávamos inserir na nossa relação preocupações comezinhas.

O nosso amigo de infância era maior e nos levava muito além do que tudo isto. 

O nosso amigo de infância tinha um programa na Rádio Borborema, de Campina Grande. Era radialista das antigas. Amigo também de família, da família. Ele era José Bezerra. Seus bordões, as músicas que tocava, os cumprimentos que fazia aos amigos, a nós e nossos pais, a importância que teve para o rádio paraibano, a marca que deixou em nossas vidas...

Nada disso se foi com o tempo, com a sua morte ou com o fato de nos tornarmos adultos.

Tudo isto será lembrado, reverenciado e homenageado em um show.

Para fazer de lembranças um espetáculo a ser apresentado em palcos teatrais é preciso sensibilidade, capacidade de lembrar, reverenciar e homenagear.

O artista campinense Renan Barbosa, intérprete e compositor fincado nas raízes, amante do que é seu, vai devolver José Bezerra à cidade. Ele também, radicado no Estado de São Paulo há mais de dez anos, volta à cidade.

Retorna para fazer algo que já devia ter sido feito, que deve ser feito de todas as formas possíveis, de maneira continuada.

Retorna para fazer algo que planeja há anos e que agora se torna possível graças ao apoio de dirigentes do Teatro Municipal Severino Cabral. Ainda procura patrocínios, viabilizações. Mas concretiza o sonho. Mitiga o injusto esquecimento que vem se perpetuando em torno da memória de José Bezerra.

Esperamos que o show-homenagem, que terá formato acústico, seja campeão de audiência, como dizia o jingle que abria o programa do mestre.  Todos ao teatro no dia 30 de novembro!

"Bom-dia, Nordeste! Bom-dia Brasil...”


Escrito por Waleska Barbosa às 15h02
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24/10/2006

O Natal de Maria

Hoje fui ao shopping.

Uma das suas lojas foi adaptada toda ao Natal.

Centenas de produtos com suas cores e cara.

E aí, vi as cores da minha casa e vi a cara de mamãe.

Mamãe é uma menina. Uma menina ainda que gosta, no final das contas, de curtir cada momento como deve ser curtido.

E embora a gente nem sempre associe uma coisa à outra, todos temos esta herança dela.

Todos gostamos de fazer dos nossos momentos os mais bonitos, dando a eles cores e caras próprias.

No São João há bandeiras, fogueiras e muito artesanato decorando nossa casa.

No Natal há muitas fitas, dourado, prateado, enfeites, guirlandas, árvores, Papai Noel, santos, anjos e luzes. Antigamente, havia luzes coloridas na mangueira lá de fora (as gambiarras). Hoje não sei mais... Há ainda?Eu quis chorar quando vi aquela loja. Porque vi sem ver a minha mãe. E admirei-a mais e mais naquele momento por saber ser ela, por fazer questão de coisas que se perdem com o tempo, por enfeitar nossa casa lembrando-nos que é Natal e que costumes, tradições e belezas de uma época não devem ser deixados de lado.


Escrito por Waleska Barbosa às 17h43
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Troquei a minha casa véia, pela casa nova....

Começando a me acostumar com o novo apartamento.

Alguns desejos/sonhos de consumo se realizaram com ele – como um chão mais amplo para poder me sentar (adoro fazer isso), uma sala-sala sem nenhuma relação com a cozinha,  incluindo a presença de eletrodomésticos, uma área de serviço, um quarto só com cama e guarda-roupa (assim não durmo com a tevê ligada e ela não fica sendo companhia constante), enfim.

Outros desejos/sonhos de consumo surgem – o que eu acho bom porque dá aquela vontade de sempre melhorar, de incluir coisas, de que ainda há algo a ser conquistado. É que na quitinete eu já nem podia desejar ou sonhar – não havia espaço físico para isso e, sinceramente, nem espaço em mim. Porque de tão acostumada, acomodada com o estado das coisas eu já tudo com uma cara de “está pronto” e isso até me desanimava um pouco.

Entre o que quero está um sofá. Quem me conhece me ouviu lamentar pelo fato de não ter um, na antiga moradia. Agora já nem sei se o quero. Há o chão. E o chão é algo de que gosto muito também.

Há coisas novas como Clementina Alviclara (batismo de Thais, mas não sei se a palavra existe nem como se escreve, pois não estava no dicionário), a máquina de lavar. Livre das lavanderias, do preço delas, do levar e buscar, dos seus atrasos.

Bom, acho que falo com mais entusiasmo do novo lar porque só agora ganha a minha cara. Só agora está quase pronto. Só a partir de hoje vou entrar nele e sentir ali o cheiro e os efeitos de uma faxina e dos penúltimos ajustes. Por isso ainda não fiz fotos de lá. Mas o outro era bem fotogênico (aí vai uma demonstração).

Dá vontade de chegar. De deitar no chão. De abrir um livro. Ouvir música. Silenciar. Curtir.

 

 

Esta foi a última festinha ocorrida no Econotel (como era conhecido o meu cafofo entre os membros do Quilombo dos Barbosa). Era o aniversário de Ana Tereza (em pé à esquerda), mas foi também a despedida de lá...

 

 

 


Escrito por Waleska Barbosa às 17h00
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19/10/2006

O que há nas caixas

Eu achei meus sonhos nas caixas.

Achei meu passado.

Achei tudo com o qual me envolvi, tudo o que amei, tudo o que me absorveu nos últimos tempos.

Achei minha capacidade de luta – a que havia antes.

Achei os projetos que ouviram não.

Achei a “Infância&Adolescência” área que queria, que tentei, que me foi negada repetidas vezes. Até que a necessidade vil – do vil metal – me afastou dela. Tirou-a do meu convívio. Não do meu coração.

Achei bilhetes, flores desenhadas no papel, corações mal-traçados.

Achei poemas.

Achei homens que amei.

Achei pessoas que me ajudaram.

Achei escritos de angústia.

Achei gritos.

Achei pedidos de socorro.

Achei agendas em que procurava emprego desesperadamente e nas quais só havia, insistentemente, o único compromisso de ‘entregar currículos’.

Eu achei Sérgio e Mauro – quando entraram em minha vida. Um para destruir o outro. Ambos para me desconstruir.

Achei as aulas de violão que nunca tive para tocar o violão que nunca comprei.

Achei o retrato da face e da alma que já não tenho.

Achei as dezenas de matérias que já escrevi e reencontrei o lugar onde mais gostei de trabalhar: jornal.

Eu achei o que já fui.

Não há presente dentro das caixas.

Onde está o presente?

Onde está o meu presente?


Escrito por Waleska Barbosa às 10h01
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18/10/2006

Eu: preparada para as mudanças...

O texto abaixo foi escrito em abril de 2005 quando fui convidada a deixar o apartamento em que morava. O mundo pareceu desabar. Não queria. Não conseguia. Não aceitava. Não me via fora daquela quadra e nem longe das pessoas que moravam, trabalhavam ou circulavam por lá e que faziam parte do meu universo. Na última hora, a dona do apartamente desistiu do pedido. Eu permaneci lá, onde morei por 4 anos e sete meses. Mais recentemente, o pedido surgiu de novo. Desta vez, definitivo. E aí, ele me pareceu diferente. O mundo continuou de pé. Eu quis. Eu consegui. Eu aceitei. Eu estou de novo endereço. Um apartamento - um quarto, não mais uma quitinete. Uma quadra residencial, não mais uma comercial. Vai demorar até que tenha a minha cara. Até que eu passe a pertencer ao novo universo. Mas a mudança me foi absolutamente pertinente e aguardada. Este está sendo um ano de mudanças. As físicas, eu as sinto. As psicológicas também devem estar acontecendo. Por isso tenho aceito as físicas com mais desprendimento, com a esperança de que o novo será melhor e sem ou com pouco medo. Que permaneçam as mudanças - para melhor. Que elas me melhorem e me ajudem a crescer, a evoluir, a me fazer e me sentir eu.

 

Tenho que me mudar - mudar de casa, de endereço. Mas ainda não achei nova casa, novo endereço.

Olho pra todas essas coisas ao meu redor...São tantas...

Tenho que tocá-las, limpá-las, encaixotá-las...Tenho que encará-las. Jogar coisas, lembrar de coisas, querer coisas.

Mas não consigo tocá-las, limpá-las, encaixotá-las. Apenas as contemplo. Apenas lamento ter que sair. Apenas sinto-me incapaz de cumprir essa missão.

Vou de um lado a outro do meu pequeno espaço. Deito na cama, ouço uma música, tomo uma água, troco de música, penso em ligar pra alguém - pedir socorro, não acho ninguém pra ligar...

Amanhã tenho que comprar o jornal. Sei que vou continuar a andança e ver lugares sujos, velhos, fedorentos, indignos, feios. Não gosto da sensação. Penso que com um pouco mais de grana disponível seria mais fácil...

De que eu tenho medo, hein? Por que não consigo resolver esse problema? Por que o desapego é tão difícil? Por que a adaptação é tão difícil?

Três anos de Brasília estão aqui dentro. As coisas que conquistei - inclusive a liberdade, a solidão - as coisas que foram chegando, se amontoando no espaço outrora vazio. Amores, paixões, sonhos chegando, sonhos se desfazendo...Amigos me visitando, amigos morrendo, amigos partindo. O Café da Rua 8 e todas as suas histórias - as escritas, as rascunhadas, as apagadas...

Eu terei que encarar minhas coisas. Tocá-las, limpá-las, encaixotá-las. Vai ser um parto. Pudera, também eu parto...

E o que será esse novo? O que me trará esse novo? O que me tirará esse novo?

 


Escrito por Waleska Barbosa às 12h14
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